nov 022013

Uma em cada 4 mulheres sofre violência no parto

Agressões vão da negligência a zombarias e frases grosseiras. Pesquisa realizada em Goiânia mostra que as principais reclamações das gestantes são a ausência de um acompanhante e a demora no atendimento. Analgesia diminui incômodo da dor em 90%, mas legislação não é cumprida pelo SUS

Diene Batista/Tribuna do Planalto/Goiânia –  O momento tão sonhado – o nascimento do filho – se transforma em pesadelo para uma em cada quatro brasileiras que sofrem algum tipo de violência no parto, retrata pesquisa da Fundação Perseu Abramo. Segundo estudo, as mais comuns são gritos, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e até negligência. Mas também sobra espaço para a agressividade e para as grosserias (veja quadro).

Entre as frases mais faladas, impropérios como: “Não chora não que ano que vem você está aqui de novo”; “Na hora de fazer não chorou a mamãe, por que está chorando agora?”; “Se gritar eu paro o que estou fazendo e não vou te atender”; “Se ficar gritando vai fazer mal para o seu neném, seu neném vai nascer surdo”.

Os dados estão contidos no estudo “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”. Neste ano, em Goiâ­nia, um caso envolvendo violência no parto ganhou repercussão no país. Um vídeo gravado na Maternidade Nascer Cidadão, ironicamente uma referência no parto humanizado, na região Noroeste da capital, mostrou uma mulher dando a luz na recepção da unidade de saúde. As imagens registraram o momento em que a criança cai no chão e, em seguida, é recolhida por um dos médicos que atuam no local.

Coordenador médico da Nas­cer Cidadão, Jony Rodri­gues Barbosa afirma que casos envolvendo violência obstétrica têm diminuído sobretudo por conta do investimento em hu­ma­nização do parto. “Esse é mo­mento de muita tensão, tan­to para a mulher quanto para o profissional, que tem duas vi­das sob sua responsabilidade”, justifica.

Ele explica que, na unidade de saúde, as gestantes têm acompanhamento multidisciplinar de uma equipe formada por médicos, enfermeira obstetra, que pode comandar o trabalho de parto, psicólogo e assistente social. Além disso, a maternidade é a única no Estado em que o anestesista fica disponível durante todo o dia. Na visão dele, a presença de mais de um profissional de saúde é um auxílio não apenas do ponto de vista técnico, mas também psicológico.

“Um profissional pode a­poiar o outro e minimizar qualquer estresse que prejudique a mãe e a criança”, ilustra Bar­bosa. Além da equipe multidisciplinar, o parto humanizado na Maternidade Nascer Cida­dão, instituição desde a criação da unidade, em 2002, dá condições para que a família – incluindo os outros filhos da parturiente – participem do nascimento da criança, por meio do acompanhamento à gestante e de visitas.

Prevenção
A presença de um acompanhante durante o trabalho de parto até o pós-parto nos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) é garantida pela lei nº 11.108, de 2005. Na prática, porém, a legislação não é cumprida. É o que descobriu a ginecologista Margareth Giglio durante pesquisa para sua tese de doutorado, defendida pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2011.

O estudo, realizado por meio de entrevistas com mulheres que tiveram parto normal e foram atendidas em hospitais públicos e particulares por meio de convênio com o SUS mostrou que a principal reclamação das gestantes diz respeito a falta de acompanhantes. Em segundo lugar, as entrevistadas apontaram o descaso com a dor, situação que poderia ser evitada se a legislação que garante a analgesia no parto pelo SUS, que diminui 90% do incômodo, fosse seguida.

“A violência começa no trabalho de parto, quando a mu­lher precisa ir a dois, três hospitais para conseguir dar a luz. A paciente não recebe, na maioria das vezes, apoio para aguentar este momento, que pode durar até 10, 12 horas”, explica Margareth, que é professora do Departamento de Medicina (MED) da Pontifícia Universi­da­de Católica de Goiás (PUC Goiás) e preceptora da residência médica nessa área no Hos­pital Materno Infantil (HMI).

Quem passa por situações que envolvem a violência obstétrica ainda tem dificuldade para compreender que determinados procedimentos estão longe de serem atitudes comuns na hora do nascimento. Para prevenir as situações traumáticas, além de se informar a respeito do tema, uma das orientações de especialistas é criar o plano de parto.

O documento deve trazer informações sobre a decisão de ter um acompanhante ou uma “doula”, profissional que oferece auxílio à mulher durante o parto, o que diminui o risco de violência. A gestante deve deixar claro que deseja que os direitos sejam respeitados, especialmente perante o hospital, caso este se recuse a fazer valer determinada lei.

Saiba mais

O que é violência obstétrica?
O conceito internacional de violência obstétrica define qualquer ato ou intervenção direcionada à mulher grávida, parturiente ou puérpera, aquela que deu à luz recentemente, ou ao seu bebê, praticado sem o consentimento explícito e informado da mulher e/ou em desrespeito à sua autonomia, integridade física e mental, aos seus sentimentos, opções e preferências.

O preocupante avanço das cesáreas

O parto normal traumático transforma a cesárea em uma espécie de sonho do consumo das mulheres. Foi o que apontou pesquisa realizada pela ginecologista Margareth Giglio, professora da PUC Goiás e responsável pela residência nessa área do Hospital Materno Infantil (HMI). Segundo ela, muitas mulheres entrevistadas relataram que, após o parto normal traumático – sem medicação para aplacar a dor e sem o conforto de um acompanhante (leia matéria nesta página), não desejam mais ter filhos ou, se tiverem, já começam a planejar a cesariana.

“Muitas pacientes me contaram que iriam juntar dinheiro para fazer a cesárea porque estavam com medo de ter outro parto normal”, relembra a pesquisadora. Análises realizadas pela professora, recentemente, mostram que o fator econômico é decisivo na hora de optar pela cirurgia.

De acordo com ela, na rede privada, 93,7% das mulheres que realizaram o parto com convênio disseram que, em futuras gestações, optarão pela cesárea. Entre as que não puderam pagar pelo parto normal e foram atendidas pelo SUS o índice cai para 19%.
Na visão dela, porém, a opção, por mais que pareça a solução para os transtornos no parto normal, é equivocada. Margareth lembra que assistência no parto normal, que, no Brasil, de forma geral é ruim, também apresenta falhas no caso da cesariana. A especialista explica que a cirurgia é considerada de grande porte e que apresenta risco de complicações.

“O procedimento também é limitante, tendo me vista que pode ser realizado apenas três vezes. Se esse limite não for respeitado, a mulher pode desenvolver dor pélvica crônica”, alerta. O índice máximo de cesarianas aconselhado pela Organi­zação Mundial de Saúde (OMS) é de 15%, mas o Brasil lidera o ranking na América Latina, segundo a Unicef, com mais de 50% de nascimentos pela cirurgia.

A dor que pode ser evitada

Confira alguns procedimentos que configuram a chamada violência obstétrica

* Amarrar a mulher durante o parto: Amarrar as pernas ou qualquer outra parte do corpo da mulher durante o parto cesárea ou normal é uma violência obstétrica

* A agressão verbal e física contra a mulher: É uma violência obstétrica o profissional da área da saúde dizer frases que humilhem ou assustem a gestante. Exemplos de falas deste tipo são: “Se gritar eu paro agora o que estou fazendo e não vou te atender” ou “Na hora de fazer não chorou, por que está chorando agora?” Esses constrangimentos de caráter sexual também são uma forma de assédio moral

* Afastar por um longo tempo mãe e filho após o nascimento: O contato com a mãe desde o início tem várias vantagens, o bebê atende mais rapidamente uma estabilidade cardiorrespiratória, chora menos, tem menor chance de desenvolver hipoglicemia e maior chance de começar a mamar logo

* Negar atendimento para a parturiente: Nenhum hospital, maternidade ou casa de parto pode negar o atendimento para a parturiente. Deixar de oferecer alívio para a dor da mulher que está em trabalho de parto também é considerado uma violência obstétrica. Aplicar a analgesia na parturiente contra a vontade dela também é considerado uma violência no parto.

* Realizar procedimento médico sem o consentimento da parturiente: É uma violência obstétrica o profissional da área da saúde não informar a mulher sobre o procedimento que será realizado. O médico está ali para ajudar a mulher a fazer a melhor escolha

* Realizar manobra de parto desnecessária: A Manobra de Kristeller, que consiste em empurrar a barriga da mulher durante o trabalho de parto, ainda é realizada por alguns profissionais da saúde, mas trata-se de uma violência obstétrica. É desnecessária e prejudicial, pois pode levar a ruptura do períneo por uma pressão muito grande e pode causar a redução da oxigenação do bebê

* Realizar a tricotomia e a lavagem intestinal rotineiramente: A tricotomia (o corte dos pelos pubianos) e a lavagem intestinal não devem ser adotadas como procedimentos de rotina e são práticas que podem ser consideradas violências obstétricas. Ambos os procedimentos aumentam os riscos em vez de diminuí-los, além do desconforto que causam para a mulher, há mais chances de ocorrer infecções

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