dez 082013

Quadrilha de exploração sexual orientava adolescentes sobre roupas e truques

Artigo 1

Lucas Reis, Manaus/Folha de S.Paulo – Cada passo das meninas exploradas sexualmente em Manaus era orientado. Roupa certa, horário no salão, modos de arrancar dinheiro dos clientes, truques para esconder a menstruação, pílulas do dia seguinte e até um aborto são citados em papéis da investigação obtidos pela reportagem. 

Os programas aconteciam em qualquer hora e lugar: estacionamentos, escritórios, casas, motéis, barcos. Custavam a partir de R$ 300.

Garotas virgens, chamadas de “lacradas”, valiam muito nesse mercado. Um agenciador contou ter “vendido” uma delas por R$ 2.200.

“Ela ficou muito destruída. […] Era virgem mesmo, parece assustada quando voltou”, disse um suspeito, em gravação autorizada pela Justiça.

Entre os clientes -homens ricos- havia quem fizesse pedidos por meninas “tipo bebezinha”. As garotas eram como produtos. “Cata alguma coisa lá que a gente tem que mudar nosso cardápio, né?”, disse um dos agenciadores, sobre a necessidade de recrutar novas meninas.

MÃE

As garotas eram aliciadas em festas e academias. “Mas [que seja] uma bonitinha, bobinha, sem estilo de mulher”, disse um outro recrutador.

Adolescentes menstruadas eram orientadas a usar algodão molhado no canal vaginal para esconder o sangramento. “Se tu fizer o truque direitinho, não sangra, não”, disse um agenciador. Se relutavam em atender alguém, vinham as ameaças.

A existência da rede começou a vir à tona em maio de 2012, quando a mãe de uma garota de 13 anos desconfiou da filha que chegava tarde e com roupas caras. Achou um celular e a mensagem: “Tem um amigo meu que dá R$ 400, quer? É rapidinho, dentro do carro, ele é casado.”

Na delegacia, a menina contou que fora convencida por uma amiga a sair com um empresário e, no dia seguinte, uma mulher lhe telefonou oferecendo mais “babados”.

A adolescente listou nomes de clientes, conhecidos na cidade, e a operação começou.

DENÚNCIA

Quando a ação policial foi deflagrada, em novembro do ano passado, 20 pessoas foram indiciadas sob suspeita de corrupção de menores, favorecimento da prostituição, rufianismo (obtenção de lucro através de exploração sexual) e, em alguns casos, estupro de vulnerável.

O Ministério Público ofereceu denúncia. Mas a Justiça, um ano depois, ainda analisa se abrirá processo -e reconhece que a investigação anda a passos lentos.

Para o desembargador Rafael Romano, atual relator do caso no Tribunal de Justiça do Amazonas, o excesso de suspeitos e o fato de haver “gente conhecida” afetam os trabalhos. O caso está sob segredo de Justiça.

“O processo já passou por alguns relatores. Passa de um para outro, que diz que não quer. Tem muita gente conhecida, de colégio, deputado, tinha prefeito. Província, né? Continua a província”, disse.

No final de 2012, Polícia Civil e Ministério Público estavam na fase final das investigações, quando, via ação judicial, um dos suspeitos teve acesso ao teor da operação.

Foi então que policiais e promotores aceleraram e desencadearam a operação Estocolmo, com 46 mandados de busca e apreensão. À época, dez agenciadores foram presos, mas logo liberados.

O caso tramita sob sigilo em segunda instância -passou ao TJ por haver foro privilegiado de dois suspeitos.

“Eles me buscavam na escola”, diz garota vítima de exploração sexual

A rotina da estudante Giovana (nome fictício) mudou radicalmente aos 14 anos.

De família pobre, da periferia de Manaus, ela foi tomada pela curiosidade ao ver uma amiga rodeada de presentes, dinheiro e carros.

Quadrilha de exploração sexual orientava adolescentes sobre roupas e truques

Em pouco tempo, passou até a cabular aula para entrar na rede de exploração sexual.

Não demorou e passou a fazer de seis a sete programas por dia. E ela ainda nem havia completado 15 anos.

“Emendava um programa no outro. Não parava. Ganhávamos dinheiro muito fácil. Mas, como diz o ditado, tudo que vem fácil vai fácil”, disse à Folha a adolescente, hoje com 17 anos e, segundo ela, longe dos encontros sexuais.

Há um ano, a rede de exploração sexual da qual Giovana fazia parte foi desbaratada pela polícia em Manaus.

Agora, a Folha teve acesso a detalhes das investigações sobre a forma de atuação do esquema que servia a grupos de empresários e políticos do Amazonas e que recrutava garotas pobres, com idades a partir de 12 anos.

O Ministério Público ofereceu denúncia. A Justiça ainda analisa se abrirá processo.

O caso está sob sigilo no Tribunal de Justiça do Amazonas. Um cônsul, um prefeito e um deputado estadual estão entre os suspeitos de fazer parte do esquema.

“Às vezes no meio da aula eles [agenciadores] me avisavam sobre algum programa por mensagem de celular, então me buscavam na escola e me levavam até o local do encontro. Depois, me levavam de volta pra escola ou pra casa”, disse a menina.

IDENTIDADE

“Na média, num dia, podia ganhar R$ 2.000, R$ 3.000. Variava de R$ 300 a R$ 400 [cada programa]”, completa.

Segundo a garota, a maioria dos clientes sabia que ela não tinha 18 anos -quando necessário, diz, usava uma identidade falsificada.

A vida dela, conta, mudou de novo quando a rede veio à tona, em novembro de 2012.

Policiais foram até a casa dela para apreender computadores e celulares. “A reação da minha mãe foi péssima. Ela desmaiou, foi uma coisa muito horrível”, afirma.

Outros parentes de garotas ouvidos pela reportagem relataram semelhante reação quando o caso foi revelado.

Com medo, Giovana afirma que apagou seus perfis nas redes sociais e passou a fazer, também, um curso profissionalizante. Hoje sonha com uma universidade.

“Não falo com mais ninguém, perdi o contato com todos. Eu vi e revi o que eu fazia e agora faço diferente. Quero estudar e ter meu próprio negócio.”

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