abr 022014

Justiça obriga grávida a fazer parto cesariana em Torres

Artigo 12

Zero Hora – Na segunda-feira (31), a Justiça gaúcha obrigou uma mulher e realizar um parto cesariana no litoral norte. O motivo: risco de morte da mãe e do bebê. Após dores abdominais, Adelir Carmen Lemos de Goes, 29 anos, grávida de 42 semanas, teria procurado um hospital em Torres, onde uma obstetra classificou a situação como de risco.

cesariana

Foto: Reprodução / Facebook

Adelir queria que o bebê nascesse de parto normal, mas a médica entendeu que seria muito arriscado. A grávida foi para casa e, depois, reconduzida à força para o hospital.

Segundo o promotor de Justiça Octavio Noronha, a Promotoria de Torres foi procurada pela Secretaria Municipal da Saúde da cidade na noite de segunda-feira, a fim de esclarecer se havia algo que pudesse ser feito para salvar o bebê, diante da resistência da mãe em seguir a orientação médica.

Noronha falou com a obstetra, que preparou um laudo técnico com recomendação expressa da necessidade de fazer a cesariana com urgência por conta do risco à vida da mãe e do bebê. No documento, a profissional indicava que a mãe já tinha passado por duas cesarianas, estava com 42 semanas de gestação e que o bebê estava sentado, de modo que o parto normal representaria risco de romper a cicatriz e levar os dois à morte.

Às 23h a ação foi ajuizada na Justiça, que decidiu pela obrigação do parto cesariana. Meia hora depois, saiu a liminar e foram cumprir a ordem.

— A medida de proteção foi emitida em favor do nascituro, porque ele tem direito à vida antes mesmo de nascer — afirma o promotor.

Risco à vida era real

De acordo com o ginecologista do setor de reprodução humana do Hospital Fêmina Sérgio Galbinski, a partir dos dados que foram apresentados pela médica no laudo e pela Justiça, pode-se afirmar que o caso de perigo era real.

— Pelo fato de Adelir ter passado por duas cesarianas, a indicação mandatória é de que se faça uma cesárea, independente de o bebê estar sentado ou não, pois há risco de ruptura uterina no momento do trabalho de parto — disse o médico.

Com o bebê sentado, este risco se agrava. Segundo Galbinski, a cabeça é a maior parte do corpo do recém-nascido, e se já houve parto normal anteriormente, ele passaria pela bacia da mãe tranquilamente. Mas estando ao contrário — o que se chama de cabeça derradeira — há o perigo de o corpo sair, e a cabeça ficar presa.

Além das situações de cesáreas anteriores e o bebê estar sentado, o ginecologista citou outras situações em que há a indicação para a cesariana:

— Desproporção entre o peso do recém-nascido para o tamanho da pelve da mãe.

— Sofrimento fetal (manifestação de desaceleração dos batimentos cardíacos do bebê.

— Não evolução do parto dentro do período previsto pelo partograma (gráfico que retrata a dilaração, a descida do bebê e os batimentos cardíacos).

— A mãe ter mais de 35 anos.

 “Foi uma frustração”, diz pai da menina

Emerson Guimarães, 41 anos, pai da menina Foto: Bruno Alencastro, Agência RBS

Emerson Guimarães, 41 anos, pai da menina
Foto: Bruno Alencastro, Agência RBS

Taís Seibt/Zero Hora – Ouvir o choro da filha recém-nascida ecoar pelo corredor do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, em Torres, foi um alívio para o técnico em manutenção industrial Emerson Guimarães, 41 anos. Mas o parto, uma cesariana contra a vontade da família, também não deixou de ser uma frustração.

– Minha mulher não teve o direito de escolher como minha filha ia nascer e eu ainda fui impedido de assistir o parto, que eu tanto queria – lamenta.

Na madrugada de segunda-feira, um oficial de Justiça, acompanhado por pelo menos seis policiais militares, segundo Guimarães, foi até a casa da família, na localidade de Campo Bonito, zona rural de Torres, para levar Adelir Lemos de Goes até o hospital. A ação era em cumprimento a uma ordem judicial expedida horas antes, após a intervenção da Promotoria de Justiça no caso.

O promotor de Justiça Octavio Noronha, que ingressou com a ação, alega que o pedido visava garantir o direito à vida do nascituro e foi embasada em laudo técnico da obstetra que atendeu Adelir à tarde. A gestante havia sentido dores e foi procurar atendimento, mas se recusou a seguir a recomendação de fazer uma cesariana. Conforme o laudo médico, a criança estava em pé e corria o risco de ser asfixiada pelo cordão umbilical. Além disso, Adelir já havia passado por duas cesarianas e havia perigo de rompimento da cicatriz deixada pelas cirurgias.

A doula Stephany Hendz, 20 anos, que acompanhava a gestação de Adelir desde a 34ª semana, esteve na consulta que antecedeu a intervenção judicial. Na manhã desta quarta-feira, vestindo uma camiseta em defesa do parto natural em casa, Stephany ainda manifestava indignação com o desfecho do caso.

– Nós sentimos a cabeça do bebê encaixada, ouvimos os batimentos do coração na lateral da barriga, como que a criança estava em pé? – questiona.

Stephany argumenta que não há provas de que a médica estava correta, já que não foram apresentadas ecografias e o pai foi impedido de assistir ao parto. A doula pretende processar o hospital e denunciar a obstetra ao Conselho Regional de Medicina.

Segundo o diretor técnico do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes, Marcelo Fagundes, durante o parto foi constatada presença de mecônio no líquido amniótico, o que seria um sinal de sofrimento fetal, e a parede do útero da paciente estava fina, indicativo de início de ruptura uterina.

_ Se há situação que pode colocar em alto risco tanto a mãe quanto o bebê, a gente indica a cesariana como tratamento mais adequado. Essa é uma questão técnica, não pode ser ideológica. Somos partidários do parto normal, mas cada situação médica é única. A avaliação é importante e, nesse caso, houve indicações de que haveria riscos _ afirma Fagundes, que informou que 60% dos nascimentos no hospital em pacientes atendidos pelo SUS ocorrem por parto normal.

A filha recém-nascida recebeu o nome de Yuja Kali, uma homenagem à padroeira dos ciganos. Ela e a mãe passam bem, mas devem receber alta somente nesta quinta-feira. Emerson é natural de Canoas e vive com Adelir em Torres há três anos. O casal tem uma filha de dois anos, chamada Flora. Moram com o casal também o filho de Emerson, Leandro, de 15 anos, e o filho de Adelir, Angelo, sete anos.

 

 

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