set 242014

Acusados de agredir mulheres assistem a aulas de combate à violência doméstica: “Não somos monstros”

artigo cedaw

Marie Claire – “Vivi 19.914 dias na face da Terra e tou sendo julgado por um único dia”, diz o comerciante José Emanoel de Almeida, de 54 anos. O dia em questão foi quando, durante uma discussão com a esposa, com quem vivia há 23 anos, perdeu a cabeça. “Dei um tapa na cara dela”, confessa. “Eu errei, tenho consciência disso. O ser humano tem que aprender com seus erros.”

 Acusados de agressão a mulheres assistem a aulas em auditório do Fórum de Taboão da Serra, na Grande São Paulo (Foto: Elisa Gargiulo / MP-SP)


Acusados de agressão a mulheres assistem a aulas em auditório do Fórum de Taboão da Serra, na Grande São Paulo (Foto: Elisa Gargiulo / MP-SP)

Almeida é um dos 30 convocados a participar do curso “Tempo de Despertar”, projeto-piloto do Ministério Público de São Paulo que dará aulas de combate ao machismo e à violência doméstica a homens que respondem a processos pela Lei Maria da Penha por agressão a suas companheiras.

“Tem que ter coerência das besteiras que a gente faz. Toda história tem dois lados. Estou aqui de coração aberto. Quero ser um exemplo”, diz o comerciante de Taboão da Serra, cidade da região metropolitana de São Paulo escolhida para a iniciativa, onde há mais de 2 mil processos por agressão a mulheres em curso –um dos maiores índices do estado.

O título Tempo de Despertar é uma homenagem ao ator Robin Williams, morto em agosto, que viveu um neurologista que muda a vida de pacientes de uma clínica psiquiátrica no drama homônimo, de 1990. “Esse projeto é a esperança real de uma mudança de comportamento, de romper com esse ciclo de violência que traz sofrimento a toda família”, diz a promotora Maria Gabriela Manssur, idealizadora do curso, após exibir um trecho do filme.

Dividido em sete módulos, o curso terá seis encontros semanais sobre temas como a própria Lei Maria da Penha, machismo e masculinidade, discussões de gênero e relações familiares, em palestras com professores de direito, policiais, juízes e psicólogos. Caso condenados, os participantes poderão ter a pena atenuada e serão acompanhados por uma equipe multidisciplinar que fará visitas domiciliares após a soltura para tentar evitar a reincidência.

Diferente do comerciante José Emanoel Almeida, a maioria dos 22 acusados que participaram do primeiro dia de curso, um grupo heterogêneo de homens com idades entre 20 e 60 anos, diz se sentir injustiçada. Em silêncio durante as exposições, eles ficam mais à vontade durante as discussões em grupo, acompanhadas por dois monitores do projeto.

“NÃO SOMOS MONSTROS”
“Na hora que vão dar parte do companheiro, elas nunca falam a verdade”, diz um deles. “Ela puxou uma faca para mim na frente do meu filho. A lei serve só para ela?”, questiona outro. “Tá todo mundo olhando para nós como se a gente fosse monstro. A gente não é monstro”, desabafa um participante, segundo o qual a ex prometeu “acabar com a vida” dele após o rompimento.

Atento às discussões, que gravou com o celular, o mecânico Claudemir Silva Souza, 49, diz acreditar que boa parte dos que estão ali não são culpados. “No meu caso, por exemplo, eu estava trabalhando e, quando cheguei em casa, achei tudo revirado. Minha mulher tinha ido embora, levou meu filho e eu nem sabia que ela tava com outro cara.”

A acusação, conta o mecânico, veio depois que tentou reaver a criança, quando a ex o teria agredido e ele revidado com um empurrão. “Moramos quatro anos juntos. No primeiro trabalho que ela arranjou, foi isso. Depois de 7 meses, disse que tinha se apaixonado por um colega do trabalho e saiu de casa.”

MULHER NA PLATEIA
Única mulher no grupo, a cabeleireira Érika Costa Romão, 29, acha que as mulheres dos acusados também deveriam ser convocadas. “Antes de a situação chegar nesse pé, o que eu posso fazer, aonde eu posso ir, quem pode me ajudar? Não temos esse tipo de conhecimento da lei.”

Junto com o companheiro Cléber Valentim de Oliveira, 31, ela foi acusada pela ex dele de agressão física durante uma discussão. “Sempre tentei apaziguar, me colocar no lugar de mulher. Mas teve um dia que ela veio para cima de mim e me defendi”, conta. Érika considera justo que Cléber, acusado no mesmo processo por agressão verbal, participe das aulas. “Não precisa necessariamente ter chegado nesse ponto. Acho que todo mundo como cidadão tinha que ter mais conhecimento, acho positivo sim.”

Já ele, apesar de considerar “a intenção boa”, diz se sentir pré-julgado por ser intimado. “De certa forma, a acusação ainda não foi apurada, não se sabe se é verdadeira ou não. Como só você é chamado, parece que você tem culpa no cartório”, afirma Cléber, que conta ter sido inocentado num outro processo em que a ex o acusava de ter agredido a própria filha. Em todo caso, acredita que as preleções sobre machismo e aspectos legais podem ser úteis.

“No dia a dia, você se depara com várias situações com mulheres, às vezes uma briga no trânsito. De repente uma mulher, por estar nervosa, pode partir para cima de você e, por ser mais forte, você tem que ter autocontrole. Se você for revidar, por mais que ela dê o primeiro tapa, você sempre vai ser errado.”

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