dez 222015

A primeira feminista – a história de Marie Gouze

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Por Cassiano Tirapani/Feminismo Racional – Marie Gouze foi a primeira mulher que pode ser chamada propriamente de feminista na história. Era uma escritora e intelectual francesa, adepta das ideias iluministas, que adotou o pseudônimo Olympe de Gouges. Você nunca ouviu falar dela, né? Também pudera, é uma história inconveniente.
A esquerda detêm a narrativa da história, e dessa forma ela escolhe o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido. Marie Gouze, para a esquerda, deve ser esquecida. O que é curioso, porque ela seria a figura perfeita, já que ela escreveu antes de John Stuart Mill, antes de Jeremy Benthan, os primeiros filósofos a defender o direito das mulheres – que “infelizmente” eram homens. Era preciso uma mulher para ser posta no início dessa narrativa, mas não Marie, ela não. Por que? Porque Marie perdeu a cabeça na guilhotina da Revolução, durante o período do Terror jacobino.
Isso mesmo que você leu, A PRIMEIRA FEMINISTA DA HISTÓRIA FOI MORTA PELA ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA (grifo do autor). Marie não era contra a liberdade, pelo contrário, o erro de Marie Gouze era ser contra a ditadura dos iluminados, e denunciar a hipocrisia e o autoritarismo jacobino. Quando os deputados da Assembleia Nacional escreveram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, Marie escreveu, de forma iconoclasta, a Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã. Madamme de Gouges escrevia panfletos políticos e peças de teatro, e defendeu em sua obra ideias pioneiras como o direito político das mulheres e dos negros, muito antes que os homens de letras se detivessem sobre estes assuntos. Mas Marie sabia que o povo também podia exercer sua tirania própria no lugar do rei, ela portanto era uma moderada, uma girondina.
Quando os jacobinos estabeleceram seu Tribunal Revolucionário e passaram a executar civis a toque de caixa, Marie passou a escrever contra estes homens que diziam-se defensores da liberdade, e isso os enfureceu. Criticou pessoalmente Marat e Robespierre, e acabou sendo presa. Foi julgada sem advogado, e condenada à morte. Quando subia até a guilhotina declarou “Se uma mulher ter o direito de subir ao cadafalso, tem o direito de usar a Tribuna”. Depois disso, foi executada. Outra famosa girondina foi Charlotte Corday, a mulher que matou Marat em sua banheira. Este Marat, tido como um santo, era no fundo um louco que tinha o poder de vida e morte sobre todos aqueles que ele declarava “inimigos do povo”, tal como Robespierre e Saint-Just. Depois de sua morte, Marat foi cultuado como mártir e santo, e Charlotte guilhotinada.
Tanto Marie quanto Charlotte notaram que os virtuosíssimos revolucionários estavam criando um Estado autoritário, guiado por pura histeria. Mas Marie estava do lado errado da história, ela era, para os loucos jacobinos, uma inimiga do povo, uma reacionária, uma anti-revolucionária. Por isso ela não será lembrada como a primeira feminista, a primeira mulher a declarar seus direitos políticos. Mas Marie foi a verdadeira matriarca do feminismo.
Sobre o autor: Cassiano Tirapani é professor de história do Estado de São Paulo.
Fonte: Feminismo Racional, publicado em 16 de dezembro de 2015.

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