maio 102016

A Flip nunca teve tantas mulheres no palco. Como chegamos aqui

artigo-cedawpor Juliana Domingos de Lima, do Nexo

Igualdade de gênero na literatura vem sendo reivindicada junto a um movimento que pauta a representatividade delas em todos os campos

ana cristina césar

A POETA ANA CRISTINA CÉSAR É A HOMENAGEADA PELA FLIP DE 2016. ANTES DELA, CLARICE LISPECTOR HAVIA SIDO A ÚNICA MULHER HOMENAGEADA NO EVENTO

O anúncio da programação da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2016, na última terça-feira (3), representa um marco histórico no quadro de participantes do maior festival literário da América Latina. As escritoras conquistaram muito mais espaço.

Neste ano, elas serão 44% dos participantes na Tenda dos Autores, o palco principal do evento. Proporção bem maior do que a de 2015 e 2014, de 26% e 19% respectivamente. Também estão representadas pela homenageada da Festa, a poeta Ana Cristina César. Antes dela, uma única mulher – Clarice Lispector, em 2005 – havia sido homenageada em 14 edições do evento.

A mudança é resultado de uma postura ativa da organização da Flip em convocar mais escritoras, mas também da mobilização de coletivos feministas. Militantes destacam, no entanto, que escritoras e escritores negros ainda continuam à margem.

O debate#

As mulheres leem mais do que os homens no Brasil. Também são parte importante da força de trabalho do mercado editorial, segundo Paulo Werneck, curador da Flip. Mas elas ainda lutam por visibilidade na literatura.

Em seu ensaio “Um Teto Todo Seu”, de 1929, Virgina Woolf escreve que mulheres de sua época tinham mais dificuldades em se tornar escritoras devido à falta de condições materiais e tradição: elas não dispunham de renda ou de um espaço próprio para a escrita, ao contrário dos homens. Tampouco tinham muitas figuras femininas em quem se espelhar.

Assim, foram historicamente marginalizadas por um cânone baseado na produção masculina. Essas são dificuldades que ainda não foram plenamente superadas.

“É um sistema que se alimenta. Se só eles circulam entre eles, então só eles vão ocupar esses espaços”, diz Laura Folgueira, editora e cofundadora do coletivo KDmulheres?. O grupo defende o aumento da representatividade das mulheres no meio literário.

De acordo com Laura, o problema não reside particularmente na festa de Paraty – ela é só reflexo de uma questão estrutural. “Não estávamos dizendo [em 2014] que a Flip era a grande vilã. Estamos dizendo que o mercado editorial tem um problema e temos que falar da Flip porque é o evento com maior visibilidade”, diz. “Nunca causou nenhum espanto nos festivais que as mesas fossem exclusivamente masculinas. A gente entendeu que a Flip é um sintoma, o problema é: as mulheres não estão sendo publicadas, não estão sendo resenhadas, não estão recebendo prêmios. É claro que isso vai se refletir em uma curadoria de festival, a não ser que se olhe especificamente para isso. É preciso uma ação afirmativa mesmo.”

Campanha e compromisso#

A luta de mulheres por representatividade não está sendo pautada só no campo da literatura nem só no Brasil. Elas reivindicam maior participação e visibilidade nos quadrinhos, no audiovisual, na ciência, nas mesas de debate, no mundo do trabalho e nos espaços de visibilidade como seminários, colóquios e painéis.

O discurso pela igualdade de gênero tem ganhado projeção nas redes sociais e já se fala em uma quarta onda do feminismo. A primeira se caracterizou pela luta das sufragistas pelo voto no início do século 20, a segunda e a terceira vieram respectivamente pela liberação sexual e inclusão de mulheres de todos os tipos no feminismo, e estaríamos vivendo a quarta, uma “primavera feminista” para a qual a internet tem papel decisivo.

Em meio ao clima de aceitação crescente do tema, o primeiro tijolo da melhora que vemos hoje na paridade de gênero no evento foi colocado em 2014. Naquele ano, apenas 15% dos autores participantes da Flip eram do sexo feminino. A falta de autoras no espaço ganhou a atenção do grupo “KDmulheres?”.

No contexto do lançamento da programação, a editora Laura Folgueira e a escritora Martha Lopes decidiram iniciar uma campanha virtual a partir da hashtag “#KDmulheres?”. Ela deu origem ao coletivo de mesmo nome que levou para Paraty o debate da visibilidade das mulheres na literatura.

De 2014 para 2015, o debate ganhou força e autonomia com outras iniciativas no campo da visibilidade das autoras na literatura, como os clubes de leitura Leia Mulheres (que hoje acontece no país inteiro), Leia Mulheres Negras, Bastardas e a newsletter Mulheres que Escrevem. Em encontros presenciais ou na internet, são movimentos que têm buscado incentivar a leitura e valorização da produção escrita por mulheres.

No ano seguinte, o debate que começou fora da Flip foi levado para dentro do próprio evento, em uma roda de conversa sobre a presença da mulher na literatura com as representantes do KDmulheres? e a cantora e escritora Karina Buhr.

Além da abertura da curadoria para pensar em soluções, a sensibilidade do público ao tema na feira tinha evoluído. Durante a festa, segundo ela, a pauta das mulheres em espaços prestigiosos da literatura como a Flip ressoava: as pessoas sabiam do que se falava e mostravam reconhecer a importância da discussão.

“Em 2015, quando anunciaram a programação, já tinha muita gente olhando para isso, não só nós. Existia uma rede super forte das meninas do Leia Mulheres, muito mais escritoras independentes voltadas pra isso, então a repercussão foi maior”, afirma Laura Folgueira.

Segundo o curador Paulo Werneck, a mudança foi fruto de um compromisso da curadoria e também de um pedido pessoal de Liz Calder, fundadora da Flip que, nos anos 1970, participou de uma movimentação importante no mercado editorial inglês pela publicação de mais mulheres. A estratégia adotada este ano para melhorar a representatividade das autoras foi convidar um número maior de mulheres para conseguir o mesmo número de convites aceitos.

“É uma meta interna da curadoria [atingir a paridade de gênero]”, afirmou o curador em entrevista ao Nexo.

Diversidade racial #

Apesar da igualdade de gênero ter avançado no evento, a diversidade racial permanece um desafio para a curadoria. Werneck lembra que o escritor queniano Ngũgĩ wa Thiong’o esteve na festa no ano passado. Quando perguntado por um repórter sobre o que estava achando de Paraty, Thiong’o disse que o que mais chamou atenção foi que não via um negro nas ruas durante a Flip, apesar de as pedras [do chão do centro histórico] terem todas sido carregadas por escravos.

“O problema da representação negra está no palco da Flip, está na plateia da Flip, está no catálogo das editoras e na sociedade brasileira. Não estou me eximindo da minha responsabilidade nisso, eu só acho que é um problema compartilhado”
Paulo Werneck
curador da Flip

O movimento negro também tem exigido mais representação. Laura Folgueira destaca que esse desfalque pode não ser por falta de opção: “Tem tantas autoras, é só olhar. Mesmo quando a gente fala de minoria, não se pode sair pela tangente de que ‘tem pouco’. Não tem pouco, é só procurar e colocá-las nesses espaços. E eventualmente teremos mais.”

Sofia Mariutti, editora da Companhia das Letras, confirma o desequilíbrio entre autores de identidades raciais distintas no catálogo das editoras. Mas aponta para uma mudança em progresso. “Estamos ouvindo cada vez mais a voz das mulheres negras por causa das redes sociais. Estão aparecendo, tarde mas com muita força. Tem muita gente querendo ouvir e dar voz a elas. O caminho natural é essa questão estar mais presente na Flip”, diz.

O gargalo da democratização da literatura no Brasil, tanto para quem faz quanto para quem consome, passa por questões complexas, como o acesso à educação. “O buraco é mais embaixo, e é muito bom ver autoras como a Stephanie [Ribeiro, militante feminista negra que está escrevendo um livro para a editora] rompendo a lógica”.

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